domingo, 26 de julho de 2015

Trindade


Trindade
Reinaldo Bulgarelli
07 de julho de 2015

Trindade abaixava a cabeça quando passava pelas pessoas. Eu o seguia com olhos curiosos e amedrontado. Morria de medo de me tornar o Trindade. Ele abaixava a cabeça porque decerto via, mesmo sem olhar, aqueles olhares desconcertados. Também ouvia, fingindo não ouvir, os comentários desencontrados que sua presença impunha. Eu não entendia muito bem o porquê. Só sabia que não era bom ser Trindade. Perguntava, mas ninguém respondia. Acho que já nem lembravam mais o motivo, se é que um dia souberam.
Vi meus pais entrarem em silêncio como se algo fosse acontecer. Era Trindade passando na frente do nosso prédio. Eu estava grudado nas grades e fazia acrobacias de menino como se nada mais pudesse ver ou escutar. Mas, não era bem assim. Minha mãe disse que ele não ia muito longe. Parei para olhar ele cair, mas não caiu. Meu pai, balançando a cabeça em desaprovação, apesar de concordar, reprovava era o Trindade. Acho que também tinham medo de se tornar um Trindade.

Dias depois eu me estatelei no chão. A bicicleta de rodinhas descia a Rua Itambé como se fosse uma locomotiva, mas não derrubou o poste. Fui parar logo adiante com um galo na cabeça e os joelhos ralados. Alguém me pegou por trás e me levantou, virou meu rosto para mirar o galo que crescia numa vermelhidão assustadora. Não sei se eu parava de chorar ou se chorava mais ainda. Era o Trindade. Passou a mão nos meus cabelos e me botou na direção da bicicleta. Não disse nada, apenas mostrou o caminho com os olhos.

O porteiro do prédio veio ao meu socorro, não sei se pelo tombo ou se pelo Trindade. Ele, como sempre, seguiu seu caminho de cabeça baixa e ouvidos tapados. Eu o segui do alto do colo do seu Ernesto. Ele me acudiu no desastre e o seu Ernesto me acudiu de quem me acudia. Chorei ainda mais quando minha mãe ofereceu a acudida derradeira. O colo de quem a gente confia gera uma perda total de compostura.

Segui adiante, nem sempre tendo colo por perto, mas sempre encontrando Trindades. Já não choro mais ao encontra-los. O medo me fez observa-los e a curiosidade me fez até admirá-los, mesmo que de longe, às vezes mais de perto. O Trindade era fantasma de carne e osso que me invadia os pesadelos, estivesse dormindo ou acordado. Depois, foi invadindo meu jeito de olhar o mundo.

Ficou interessante olhar com olhos de Trindade. Ficou divertido considerar o que diria ou o que faria Trindade diante de qualquer situação que se me apresentava. Sempre seremos Trindade para alguns. O mundo sempre fica desnudo quando o Trindade passa. Aprendi que Trindade, seja lá por qual motivo for, sempre amedronta e atrai com seu andar que faz desmoronar as caras de paisagem.

domingo, 28 de junho de 2015

Dia do Orgulho LGBT

Dia do Orgulho LGBT
Reinaldo Bulgarelli
28 de junho de 2015

Esse colorido todo proporcionado pelo Facebook não é apenas por conta da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pela Suprema Corte dos EUA. Estamos no mês do Orgulho LGBT e a data central é justamente hoje, 28 de junho, motivo pelo qual a Suprema Corte dos EUA e organizações de outros países anunciam medidas a favor dos direitos LGBT.
Não foi o início do movimento por direitos LGBT, muito antigo, mas é a data que acabou imperando nas últimas décadas por conta da revolta ocorrida no bar Stonewall, em Nova York, dia 28 de junho de 1969. A polícia invadiu o bar, agrediu homossexuais e pessoas trans, como sempre fazia, mas a diferença é que encontrou resistência.
O resto da história a gente já conhece. Estamos vivenciando vários avanços, não sem conflitos, na conquista da igualdade de direitos, oportunidades iguais e igualdade de tratamento para a população LGBT.
Há quem veja movimentos de equiparação de direitos, todos eles, como movimentos para destruir os direitos dos outros. Sim, há a questão de acabar com privilégios de grupos que se entendem como normais, corretos, melhores ou a única maneira certa de viver a vida, por isso os conflitos.
Há interesses em jogo e há quem eleja a comunidade LGBT, como segmento excluído do status de normalidade e aceitação social, para se projetar, ganhar dinheiro ou ganhar poder político. Nada como eleger um inimigo para poder se fortalecer, dentro desta lógica maquiavélica para ganhar mais poder, fama e dinheiro.
A proposta do movimento LGBT e seus aliados é a de promover direitos iguais e, com isso, promover também uma cultura de respeito às orientações sexuais e identidades de gênero que não foram consideradas como respeitáveis por questões das mais variadas, não apenas religiosas.
O uso da religião para afirmar privilégios de pessoas heterossexuais ou cisgêneras é uma delas e a mais presente hoje no Brasil. Há grupos que abertamente manipulam a religião para manter seus privilégios, por exemplo, fazendo uso de alguns trechos de textos destas religiões e esquecendo outros. Por que não viver de acordo com todos os outros preceitos do texto que é sagrado para essas pessoas ou grupos?
A ONU recentemente lançou a campanha "Livres e Iguais" para reafirmar que todas (todas!) as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. O vídeo lançado em maio (https://www.youtube.com/watch?v=8qsSlomXuzE) é para marcar esse período no qual há várias datas que lembram o enfrentamento da homofobia e o dia de hoje, do Orgulho LGBT. Portanto, os homofóbicos, que negam direitos iguais a homossexuais e pessoas trans, ficam ainda mais violentos e atacam tanta visibilidade e presença na mídia, mas são dois meses especiais para a comunidade.
Afirmar o orgulho LGBT não é afirmação de que há uma "raça superior". Isso os homofóbicos o fazem ao negar respeito e direitos iguais. O orgulho se contrapõe à vergonha de ser homossexual ou travesti e transexual, imposta por quem se considera normal e, portanto, superior. As Paradas e outras manifestações neste período fazem parte desta busca por dar visibilidade às situações adversas enfrentadas pelas pessoas LGBT, mostrar suas propostas para garantir direitos iguais e a importância do respeito.
Você que coloriu a sua foto a convite do Facebook, seja porque é da comunidade LGBT ou porque é solidário à ideia de respeito e direitos iguais, pode ficar "colorido" até o final do mês. Há quem queira ficar colorido para sempre, dando visibilidade a este aspecto de sua vida ou de suas crenças, de seu ativismo ou de sua busca por afirmar cotidianamente o orgulho de ser LGBT ou solidário às agendas da comunidade.
Os que se incomodam, continuarão se incomodando, usando até fotos de crianças famintas para disfarçar sua homofobia numa forçada e repentina solidariedade com a África (e suas religiões?). É até bom sinal, penso eu, que estejam começando a ter vergonha de afirmar sua homofobia tão abertamente e precisem usar de faces famintas e não as próprias. É covarde e mais uma prática de violência, mas isso a comunidade LGBT e quem é solidário a ela já conhece, portanto, não há novidades.
A agenda por direitos iguais é longa porque ainda são muitos os direitos negados às pessoas LGBT. Estamos longe, assim, da igualdade de oportunidades e de tratamento. Mas, os avanços são visíveis em todos os campos e é bom não esquecê-los porque são fruto do trabalho de muita gente que nos antecedeu.
Haverá um dia em que nada dessa conversa sobre direitos iguais será necessária? Tomara, mas tudo indica que, mesmo alcançando igualdade de oportunidades e tratamento, sempre haverá alguém, com maior ou menor apoio, para dizer que ser LGBT é contra a religião, a família, o Estado, isso e aquilo. Há questões que são históricas e persistentes no nosso caminho como humanidade, com gente sempre pronta pra nos usar em busca de privilégios, alcançar fama, poder e dinheiro.
Portanto, cuide-se bem porque o caminho é longo, mas não é mais tão solitário como já foi um dia. Basta ver esse colorido que ganhou as páginas do Facebook.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Bilhetinho às crianças e adolescentes, filhos de nazistas, sobre gênero e diversidade na educação

Bilhetinho às crianças e adolescentes, filhos de nazistas, sobre gênero e diversidade na educação

Reinaldo Bulgarelli
23 de junho de 2015

Se você é de uma família criacionista, por exemplo, encontrará na escola a versão científica desta história. Estamos falando da escola pública e não uma escola confessional, mas isso vale para todas.
Cabe à sua família dizer no que crê e à escola dizer o que sabemos, nós humanos, sobre nós mesmos. E tudo com base na ciência. Não deveria haver conflito, apenas o direito ao acesso à informação, sobretudo à informação com base na ciência, sobretudo na escola pública, mas isso vale para todas. Conhecer é (ou deveria ser) algo muito prazeroso.
O país tem uma Constituição (conheça, vale a pena!), e tem uma LDB e um PNE. Tem, ou deveria ter, gente séria cuidando para que a escola fosse um lugar que cuidasse da sua formação e não um lugar de pregação nazista (com o dinheiro público!). As alianças políticas às vezes descambam para lugares horríveis e esquecem até de cuidar da escola, da educação e agem como se pudessem lotear também o futuro que nem terão (a vida é curta!).
O mesmo vale para o conhecimento sobre questões de gênero, diversidade humana e outros temas que você precisa conhecer, até para poder tomar suas decisões, realizar suas escolhas, produzir algo sobre tudo isso, quem sabe? O que não está no campo das escolhas, ou não deveria estar, é o respeito às pessoas.
Você deverá saber que amar as pessoas está no campo das escolhas, mas respeitar não está. Se a religião dos seus pais diz para amar todas as pessoas, muito bem, mas na sociedade o texto que rege nossas vidas é escrito por gente e ele nos diz para respeitar todas as pessoas.
Tem um texto muito legal que você precisa conhecer (e que seus pais odeiam). Ele diz que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Não é um texto sagrado, mas elaborado por gente, sim, gente como eu e você, para enfrentar gente como seus pais que querem aniquilar os que são diferentes deles.
Sua família, minha criança e meu jovem, pode estar tirando de você o acesso a uma informação que vai lhe fazer falta na vida. Pior, está impondo a você uma formação nazista na qual o desrespeito e a violência contra "os pecadores", “os diferentes deles”, os "destruidores da pátria e da família”, são uma exigência para você ser reconhecido como "uma pessoa de bem". Lá no céu da sua religião, você vai ter que prestar contas do amor, mas aqui você deve (ou deveria) prestar contas do respeito.
Presta atenção: a vida não é assim como querem seus pais nazistas e, se for, será uma vida muito pobre, cheia de sangue nas mãos, o que não é uma coisa boa para ninguém, inclusive para você. Não acredita? É porque seus pais não deixam você conhecer a história, ver o mundo para além da ideologia deles, das mentiras que inventam em nome da sua “boa formação moral”.
Esse nazismo com cara de religião (cada hora o nazismo tem uma cara, mas é tudo a mesma coisa) é vergonhoso e será cada vez mais poderoso quanto menos você aprender na escola, sobretudo na pública, mas não apenas.
Meu conselho é que você diga aos adultos que cuidam de você e que deveriam te ajudar a estar no mundo e com o mundo, que você tem direito a saber o que diz a ciência, tanto quanto eles têm direito a te dizer o que diz a religião deles.
O que eles não têm direito é de fazer pregação nazista na escola, muito menos na escola pública, mas não apenas.
Quem cuida (ou deveria cuidar) de manter e fortalecer o estado democrático de direito, há de se manifestar sobre as práticas nazistas de seus pais e desfazer o que estão fazendo no espaço público, mas não apenas. (Se fazem isso na vida pública, imagine o que não fazem na privada?!)
Uma escola não fica vazia apenas quando faltam alunos, mas quando lhe retiram o motivo para a qual foi criada.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Diversidade humana e a humanização da diversidade


Anjo de costas, sem rosto, só asas. (foto: Reinaldo Bulgarelli)
Diversidade humana e a humanização da diversidade
Reinaldo Bulgarelli, 12 de maio de 2015

A diversidade nas organizações empresariais enfrenta o desafio de se humanizar. Muitos dizem que não é importante falar de diferenças, muito menos das questões de gênero, raça, idade, orientação sexual, identidade de gênero ou deficiência, entre outras características, mas da diversidade cultural, de pensamento ou de ideias.
Defendo que a diversidade nos convida a olhar tudo junto e ao mesmo tempo. Estamos falando da diversidade de características tidas como visíveis, tanto quanto estamos falando da diversidade de histórias de vida, experiências, sentimentos, pensamentos, crenças e perspectivas.
Os motivos para isso são muito simples. Ninguém, por exemplo, é apenas mulher. É mulher e muito mais, numa complexa e rica variedade de marcadores identitários que tornam cada pessoa única ou singular. E as mulheres vivem numa dada realidade, um tempo e lugar que a valoriza ou a desqualifica conforme o grau de machismo presente na sociedade.
A característica “ser mulher” traz implicações na rede de relações sociais de acordo com o entendimento produzido pelo machismo sobre o que significa ser homem ou ser mulher, quem pode mais, quem nasceu para isso e para aquilo, quem é forte e quem é frágil. Uma característica tida como visível pode produzir experiências das mais variadas numa pessoa do sexo feminino e no seu entendimento sobre os papéis de gênero que a cercam desde o nascimento.
Uma das consequências do machismo é a produção de desigualdades injustas entre homens e mulheres. São injustas porque estão num nível intolerável e não estão baseadas no mérito, mas na característica. O que é apenas uma característica, se transforma em motivo para desigualdades injustas e, numa sofisticada teia de geração de falsas hierarquias sociais, essas desigualdades podem ser naturalizadas. O que é do campo social, essa desigualdade produzida na vida em sociedade, é justificada como se fosse do campo da natureza, da biologia ou da genética.
Só por esses motivos já é possível insistir no convite da diversidade para seja humanizada, ou seja, para que se considere a pessoa toda nas suas circunstâncias, na rede de relações e nesta teia de ideologias da discriminação (racismo, machismo...) na qual estamos imersos e da qual precisamos nos libertar. Humanizar a diversidade parece redundante, mas não é o que acontece quando nossos programas de valorização da diversidade pinçam um marcador identitário, como ser mulher, separando-o da história de vida e de todos os outros marcadores que contém, suas implicações e impactos.
No pensamento simplista, ou você é mulher ou é uma ideia, ou é um corpo ou uma alma. Acolher a vida como ela é significa considerar um marcador identitário como porta de entrada para toda a riqueza da diversidade humana contida em cada pessoa, uma singularidade que se expressa de forma dinâmica e complexa na teia de relações sociais.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O poder da cultura sobre a licença maternidade


O poder da cultura sobre a licença maternidade

Reinaldo Bulgarelli
07 de abril de 2015

Beatriz Portugal, jornalista freelance, escreveu um delicioso relato na perspectiva de gênero sobre sua experiência na Islândia. A Islândia é citada sempre que se fala em equidade entre homens e mulheres. O país está a cinco anos consecutivos no topo do ranking anual do Fórum Econômico Mundial.
 
Mesmo no topo, ainda há desigualdade em relação ao salário pago a homens e mulheres, ou seja, não há ainda nenhum país que tenha alcançado pleno desenvolvimento no tema.

Contudo, essa comparação com outros países permite observar comportamentos da sociedade que se refletem no mercado de trabalho. Beatriz fala logo de cara em maternidade e da premissa dos direitos iguais entre pai e mãe. Lá a licença é de nove meses ao todo. Uau! São três meses para a mãe, três meses para o pai e outros três que podem ser usados e divididos pela mãe e pelo pai. Um avanço e tanto.
 
Por que a maternidade é alvo da proteção da legislação aqui no Brasil? Por que a sociedade ainda não demanda por direitos iguais e cabe apenas à mulher, na cabeça dos legisladores, a tarefa de cuidar da criança. Bem verdade que a criança também tem direitos nesta história e a amamentação é uma delas, de preferência, nos primeiros seis meses. Tirando a gravidez e a amamentação, não há nada que diga respeito apenas à mulher e, mesmo a gravidez e a amamentação podem e devem ser acompanhadas de perto pelo pai.

A legislação na Islândia expressa uma visão de mundo no qual homens e mulheres têm direitos iguais, incluindo a constituição da família, o cuidado com os filhos e com a casa. O homem não ajuda em casa, ele faz o que deve fazer. A mulher não tem “privilégios” por ser mãe. A licença é para que ambos cuidem dos filhos, considerando as diferenças, mas sem gerar desigualdades.

Uma das desigualdades criadas com a legislação que não parte da premissa da igualdade e, portanto, da responsabilidade de homens e mulheres para com o desenvolvimento da criança, é a do acesso e permanência da mulher no mercado de trabalho. Usa-se esse fato da gravidez e da maternidade para pagar menos à mulher e para criar barreiras para seu desenvolvimento profissional.

Se a legislação pensa nos três – na mulher, no homem e na criança, não é apenas a mulher o problema da empresa, mas a família, a paternidade e a maternidade. Como o mercado de trabalho ainda avesso a gente em sua diversidade, pensando no nosso caso aqui no Brasil, não tem como se livrar totalmente de homens e mulheres, é obrigado a conviver com os dois e com essa legislação que obriga a empresa a conviver com um fato da vida: há pessoas que gostam de ter filhos e que gostam de cuidar deles.

Diz a Beatriz que na Islândia é até mal visto um pai que não assume sua responsabilidade e entrega tudo para a mulher cuidar. Virou coisa feia ser homem que não participa como é feio fumar, contar piadas homofóbicas, desprezar questões ambientais e assim por diante. Como é valor para a sociedade, as práticas de gestão, com seus filtros sempre largos a tudo de bom e tudo de ruim que há na cultura, tender a ver com maus olhos o profissional homem que não cumpre com suas obrigações. Viva a Islândia!

Aqui, um homem que pede para sair mais cedo para levar a criança no médico vai gerar profunda admiração pelo feito extraordinário e o comentário maldoso de que é mal casado porque a mulher, relapsa, não cumpre com sua obrigação. Estou exagerando?

Lá na Islândia já não é mais estranho, como é para nós, que um homem comente no trabalho que está com o corpo dolorido porque fez tarefas domésticas naquele dia: lavou, passou, cozinhou, limpou o banheiro, a cozinha, ficou com a criança no colo pra cá e pra lá e coisas do tipo. É a igualdade e suas implicações maravilhosas para o cotidiano de homens e mulheres.

Claro que um casal deve poder escolher, dependendo do momento e do desempenho na carreira, quem vai se dedicar mais ao trabalho ou à casa, mas há a escolha e ela pode ser tanto do homem como da mulher, sem estigmas ou o rótulo de que um deles está fora do lugar. O trabalho e a casa são lugares tanto de homens como de mulheres. Que sonho!

Lá, as mulheres têm filhos mais cedo e 88% das que estão em idade economicamente ativa trabalham. A taxa de fertilidade é das mais altas da Europa com média de dois filhos por mulher. Aqui, o mercado de trabalho ainda é masculino, o desemprego é feminino, mesmo com a sociedade brasileira sendo constituída por maioria de mulheres e tendo elas mais anos de escolaridade do que os homens. Melhor nem falar da diferença de salário ou de acesso à política, com um Congresso masculino e que tem que pensar a sociedade toda.

Para a Europa pode ser importante essa alta taxa de fertilidade, enquanto aqui as regras para o mercado de trabalho geraram um dos mais bem-sucedidos controle de natalidade do mundo. Não dá para escolher. A regra é clara: ou a mulher escolhe trabalhar ou viver. Sempre lembro que parece um assalto: a bolsa ou a vida!

Não bastasse um mercado de trabalho ainda distante desta ideia de igualdade entre homens e mulheres, temos um Congresso cada vez mais conservador que, com base em religião, diz que o trabalho da mulher está destruindo a família brasileira. Tudo que puderem fazer para colocar a mulher de volta ao lar com seu papel bem definido, melhor para a família. Ô atraso!

Gosto de analisar a Islândia nestas questões de gênero porque fica evidenciada essa questão de valor, da igualdade como valor, do cuidado compartilhado como valor. Na Islândia, a sociedade, portanto o mercado de trabalho, entendeu que gravidez e maternidade fazem parte da vida e incorporam esse fato na gestão empresarial.

Aqui ainda se tem que escolher entre viver e trabalhar, então tem algo errado. Cada talento que a empresa perde por conta desta falsa escolha deveria pesar na consciência, além de pesar no bolso. Enquanto não for valor lidar com a vida como ela é, as empresas preferem pagar o preço, ter prejuízo, ver o talento ir embora e sem se lamentar, culpando a mulher pela "escolha", porque mais importante é manter o controle e a ordem. Tudo que não é homogêneo traz uma complexidade que é encarada como problema e não como solução.

Nem dá mais pra dizer que é a ordem dos homens, apesar deles terem criado as empresas à sua imagem e semelhança, sobretudo de um padrão de homem idealizado: livre de gravidez, da amamentação, bem como livres do afeto pelos filhos, pela vida, pela família, pelo lazer, com foco apenas na empresa e na carreira. Sabem de nada, inocentes!

Hoje há homens que também não se encaixam mais neste padrão avesso à paternidade responsável, participativa, que compartilha o prazer de viver e de trabalhar, o prazer de ver o negócio e os filhos crescerem. Triste essa falsa escolha que o ambiente de trabalho ainda impõe às mulheres e, mais recentemente, aos homens que desejam algo mais do que ser uma “mão-de-obra”. E tudo porque ainda não paramos direito para pensar o quanto faz bem para os negócios saber lidar com a vida, a vida como ela é.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Ódio


Ódio
Reinaldo Bulgarelli
03 de abril de 2015
 

O ódio parece ter um alvo, mas tem mesmo é pavor de gente, de tudo que é gente.
O ódio manda e desmanda, gosta de parecer sério, durão, falar alto, cuspir palavras, babar venenos, retratar o mundo como o inferno que vai dentro dele.

O ódio é cheio de ordens pra dar, quer mandar até no tempo e botar todo mundo pra morar no seu passado, só porque não tem a menor vontade de construir futuros.

O ódio é ignorante, não quer compreender os problemas e buscar a melhor solução, quer julgar e exterminar.

O ódio é covarde, joga culpas e não assume responsabilidades, gosta de incitar os outros a fazer o que quer e diz que estava só falando verdades.

O ódio é mentiroso, distorce tudo a seu bel prazer porque o importante é mostrar quem manda e quem tem razão.

O ódio é opressor, não gosta de liberdade, não aceita que se façam escolhas porque já tem tudo pronto para o mundo, como ele deve ser e como deve se comportar.

O ódio é arrogante, assume o lugar da verdade e não sabe lidar com a dúvida e muito menos com o erro, com o que outros têm a dizer, o que outros vivem, sentem, pensam, querem, buscam ou escolhem.

O ódio é autoritário, não deixa espaço para a incoerência, para a contradição, quer tudo certinho, em ordem, como se a vida acontecesse numa régua.

O ódio é destruidor, nada escapa e nada fica de pé, a não ser sua inarredável vontade de imperar sobre tudo.

O ódio é vingativo e não justo, não quer o que é certo, mas o que diz ser correto segundo a suas leis inquestionáveis.

O ódio é intolerante porque não suporta a diversidade e detesta o que não é homogêneo, liso, plano, enfim, o que não é a sua imagem e semelhança, o que não dá para ele comandar e controlar.

O ódio é preguiçoso, mas diz que é prático, que gosta de sair fazendo e não de ficar falando. Não tem a menor vontade de lidar com o imponderável, o improvável, as surpresas da vida e, assim, não sabe lidar com a própria vida.

Quando a gente começa a confundir indignação com destruição do inimigo, quando a gente confunde exercício da cidadania com humilhação dos mais fracos, quando a gente começa a dizer que o mundo está perdido e sente vontade de sair dando tiro, quando perde a vontade de escutar, de compreender, de dialogar, cuidado, o monstro do ódio tá vindo morar dentro da gente e vai querer dominar tudo em volta.















sábado, 21 de março de 2015

Sustentabilidade, desenvolvimento humano e diversidade

Sustentabilidade, desenvolvimento humano e diversidade

Reinaldo Bulgarelli
Txai Consultoria e Educação

Esta semana foi cheia de atividades das mais variadas e para as quais eu preparo muito material. Gosto de PowerPoints! Nem todo material eu posso compartilhar porque são produzidos para clientes.

Outros, são para eventos abertos e adoro isso porque posso publicar minhas produções, descobertas, dúvidas, opiniões, desejos, pelo menos aquilo que foi parar no PowerPoint.

Por meio do SlideShare, compartilho aqui duas apresentações que realizei no mesmo dia, 18 de março (dia cheio de diversões!). Uma delas foi para o primeiro Clube Abraps do ano, logo cedo. A Abraps é a Associação Brasileira dos Profissionais da Sustentabilidade. Não apresentei os slides porque o formato é de um gostoso pape-papo no café da manhã, mas aqui estão as reflexões que fiz sobre o que há de novo no tema da valorização da diversidade em relação às práticas de sustentabilidade e responsabilidade social empresarial. Falo das novidades e também dos desafios para o ano de 2015.

Depois, à noite, estive na Universidade Metodista para atender a um convite muito especial do Curso de Direito: uma aula magna com o tema "A Condição do Vulnerável na Sociedade Contemporânea". Falei sobre desenvolvimento humano, o Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD que tratou do tema (2014) e, claro, como o tema sugere, falei de direitos humanos e valorização da diversidade.

Seguem aqui os links para o site do Slideshare.

http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/sustentabilidade-e-diversidade
http://pt.slideshare.net/reinaldotxai/aula-metodista-reinaldo-bulgarelli-18mar15-ap