domingo, 9 de agosto de 2015

Valorização da diversidade e educação em organizações do século XXI



Valorização da diversidade e educação em organizações do século XXI


Reinaldo Bulgarelli

Txai Consultoria e Educação

23 de fevereiro de 2011



Um mundo com tantos desafios necessita de profissionais cada vez mais atentos às possibilidades que a conexão e a vida em rede possibilitam. É a colaboração em espaços virtuais ou presenciais que permite ampliar o conhecimento, criar e inovar na direção de um mundo mais sustentável.


A construção urgente de um mundo mais sustentável traz consigo o desafio de criarmos espaços criativos e inovadores para nossos negócios. A empresa não sobreviverá sem uma boa dose de ousadia em termos de inovação tecnológica e também cultural. Como estamos realizando ou vivenciando mudanças no nosso comportamento frente a esses desafios colocados por um mundo com 7 bilhões de pessoas e em evidente colapso? Como foi ser feliz nos anos 2000 e como serão nossos padrões de felicidade nos próximos anos?


Nem precisamos ir muito longe neste exercício porque é agora que precisamos encontrar soluções para que nossos produtos e serviços façam sentido para as pessoas, demonstrando compromisso com a vida e com sua felicidade. Quem irá encontrar essas soluções?


A melhor universidade do mundo não consegue sozinha formar uma pessoa para trabalhar na empresa que está na mira da agenda de sustentabilidade. A qualquer momento, seu produto e até mesmo sua existência podem ser questionados. Será mesmo que precisamos disso ou será mesmo que essa empresa fará falta?


De qual empresa estamos falando? De todas. A ideia de cadeia de valor e necessidade de realizar a atividade empresarial considerando muitos stakeholders ou públicos estratégicos envolve a todos numa rede de relações complexa e dinâmica, interdependente, orgânica, assim como é complexa e dinâmica a sociedade onde as empresas operaram. Nesta rede de relações há os olhos bem atentos de um consumidor que está mais rapidamente acolhendo o convite para repensar seus valores, sua maneira de consumir e de buscar felicidade.


Mais do que medir a velocidade desta mudança, é importante perceber uma tendência e reconhecer que a mudança é mais rápida do que a capacidade das empresas de dar conta dela. A produção de soluções tecnológicas que causem menos dano ao planeta e que acompanhem as mudanças de perspectiva, interesses, valores e de felicidade das pessoas que compram o que vendemos esbarra no conservadorismo de estruturas rígidas e processos que existem para congelar a empresa no tempo e não para fazer rodar pelas estradas de um mundo onde a mudança mudou, é intensa, profunda e ligeira. Até mesmo a definição da identidade da empresa parece mais um cativeiro, uma “identidade paralisante” do que um eixo em torno do qual os sujeitos da empresa podem ousar na interação com a realidade atual e futura.


Uma empresa hoje, mais que nunca, é feita de diferentes perspectivas unidas, articuladas e trabalhando juntas, não sem conflitos, tendo por base uma identidade organizacional sintonizada com o presente da humanidade e com seus anseios de uma vida melhor, digna, para todos em todos os lugares. Como encontrar a melhor forma de traduzir qualidade, preço e entrega em algo realmente sustentável para todos e não apenas para uma parte da cadeia de valor?


Diálogo, capacidade de incluir perspectivas variadas na tomada de decisões, de colaborar na diversidade de pensamentos, histórias de vida e de características humanas das mais variadas, parece ser uma resposta útil neste momento em que tendemos a acreditar mais e mais no individualismo ao invés de acreditarmos no indivíduo.


O que nos atrapalha? Gostamos de grifes nos diplomas, mais do que do conhecimento e de pessoas estudiosas. Gostamos de reunir times que falem muitas línguas, mesmo que nem sempre seja a língua do nosso tempo e lugar. Gostamos das aparências e dos seus significados, mais do que dos conteúdos, suas potencialidades e possibilidades. Gostar de aparências eleitas como normais, chiques, poderosas, confiáveis, nos leva a estereótipos, preconceitos e práticas de discriminação, quando precisamos é de abertura para enxergar o que está diante de nós. Gostamos de harmonia, mesmo que seja falsa, porque ela dá ideia de “ordem e progresso”, mesmo que transforme nossas empresas em um verdadeiro cemitério da criatividade humana.


Não é tarefa fácil encontrar meios de trabalhar juntos, colaborar e contribuir para o todo em estruturas rígidas, autoritárias, conservadoras, elitistas e avessas à diversidade. A diversidade que queremos muitas vezes passa por levíssimos e harmônicos tons de azul e não por um arco-íris cheio de cores contrastantes e conflituosas. Queremos uma diversidade que esteja sob o controle dos nossos processos, que não tenha nenhuma característica divergente do conjunto, da maioria, do padrão dominante. Queremos aprender na diversidade, mas desde que não nos custe conviver com mulheres, onde há apenas homens, com negros, onde há apenas brancos ou com pessoas com deficiência, onde há apenas pessoas sem deficiência. E por aí vai.


Não se trata de um vale-tudo, pois há a identidade organizacional com sua missão, visão e valores definidos. Mas, como foi dito, ela nem sempre é fonte de energia para nos transportar a novos lugares e parece mais uma âncora que nos prende ao passado.


Gestão como sinônimo de controle precisa ser conceito resignificado porque há muito mais asfixia do que criação de possibilidades para fazer e incrementar, inovar, criar e recriar constantemente num mundo que se cria e recria mais rapidamente ainda.


Quem será o convidado para o mundo sustentável que precisamos construir agora? Do sonho de quem ele será feito? Quem será ouvido? Quem participará de sua construção? Seremos inclusivos na hora do sufoco ou jamais seremos nada. Bom seria ser inclusivo sempre, mas se pelo menos neste momento pudéssemos alargar nossos horizontes, as soluções seriam de melhor qualidade. Diversidade e sustentabilidade andam juntas e uma é parte integrante da outra.


Não há sustentabilidade sem valorização da diversidade, o que significa gostar, ter apreço, considerar e reconhecer a diversidade que nos caracteriza a todos como fonte potencial de adição de riqueza a todos. Não há porque afirmarmos nossas características ou marcadores identitários se não for para cooperarmos melhor nessa construção da sustentabilidade que precisa ser coletiva e intensamente vivida no encontro, no diálogo, na abertura ao novo, ao diferente de si, do padrão dominante, do esperado e da rotina forjada por práticas controladoras e autoritárias. O inusitado, o inesperado e a surpresa dependem da pessoa para serem percebidos e transformados em algo interessante para si e para o todo.


No mundo do triple bottom line, que desconstrói a lógica do lucro por si só e para si mesmo, a diversidade é muitas vezes esquecidas. É como se ao falar de pessoas, planeta e lucro não estivéssemos falando também de cultura, de política e de economia, de filosofia e de visões de mundo que interagem para compor a realidade e os padrões de felicidade. Há quem traduza lucro (profit) por economia no modelo criado por John Elkington em seu livro “Canibais de Garfo e Faca”, de 1999. Economia não envolve pessoas e o planeta? Não envolve aspectos culturais e políticos? Onde há pessoas, há cultura. A dimensão cultural é parte da essência da humanidade nesta eterna construção de nós mesmos e das maneiras de vivermos juntos no planeta e até fora dele. A diversidade humana está na essência de uma gestão sustentável que trabalha para o desenvolvimento sustentável.


Porque esquecemos este pequeno detalhe? Porque tudo em volta conspira para isso com anos e anos de desprezo pelo que não é liso, homogêneo, regular, normal... E ser normal é caber nas medidas do Homem Vitruviano, de Leonardo da Vince. Tudo que não é homem, com medidas simétricas, branco e adulto, foge da norma de perfeição comprada por nossa mente como atributo de beleza, confiabilidade, harmonia, paz, sucesso e felicidade.


A diversidade que queremos tem vida, não é insípida, inodora, incolor, invisível, intátil, insonora, insopesável, imperceptível, sem nada que atrapalhe a paz do Homem Vitruviano. A diversidade que queremos é inclusiva porque se identifica com a pluralidade humana que nos caracteriza a todos e assim deveria estar presente em nossas organizações, espaços onde reunimos gente e não “mão de obra”.


Diversidade é uma palavrinha relegada ao campo da cultura e pouco utilizada nas discussões sobre sustentabilidade. No entanto, sem a dimensão cultural, não há triple bottom line que sobreviva.


*Revisto em 09 de agosto de 2015.

sábado, 8 de agosto de 2015

O mito do amor paterno ou a construção de novas relações entre homens e seus filhos e filhas


O mito do amor paterno ou a construção de novas relações entre homens e seus filhos e filhas

Reinaldo Bulgarelli
08 de agosto de 2015

Meu pai tinha quarenta e quatro anos quando eu nasci. Era quase um idoso para os padrões dos anos 60. Quando eu tinha dez anos, ele já era um idoso para os padrões dos anos 70. Fui criado por um homem que foi meu pai e meu avô. Para além do que dizem ser o papel de pai e papel de avô, percebo que ele experimentou também uma transição e resolveu dilemas, modernoso como era, que hoje estão mais presentes na vida dos homens.

O pai não tinha tempo para nada em seu papel de provedor, o que trabalhava enquanto a mãe ficava cuidando da casa (como se isso não fosse trabalho). O avô já tinha passado alguns sustos com a saúde, não trabalhava tanto como antes e dava mais valor a passear comigo do que fazer outras coisas em seu tempo livre. O homem nascido em 1917, meu pai, mantinha uma relação distante, tinha uma presença pontual, forte, marcante, mas sem nenhuma blandícia ou afagos. O homem dos anos 70, já avô, buscava corrigir o passado ou o que lhe haviam ensinado sobre o que era ser pai, construindo comigo uma relação que permitia expressar algum carinho, até mesmo físico.

Dizem que quando nasce uma criança, nasce também uma mãe e um pai. Falar em nascimento de um pai faz parecer que acontece uma mágica e não a construção de uma relação, mesmo que cercada de predefinições da sociedade naquele determinado tempo e lugar. Li ontem uma reportagem sobre um pai de filhos gêmeos que ficou viúvo e com os bebês para criar. A entrevista desse pai fala da construção de uma relação: "Esses dias que estou pegando eles no colo, estou conhecendo cada detalhe do corpinho deles: dedinhos, sobrancelha, cheiro. Estou viciado no cheiro deles. Nessas horas eu penso, ‘é verdade, eu sou pai!’."(1)

Meu pai, vindo da roça, como se diz, me faz imaginar quão distante era seu pai em termos de demonstrações de afeto, como pegar no colo, brincar junto, beijar, afagar, abraçar na hora do medo, dormir junto, enxugar as lágrimas, falar de sentimentos, dedicar tempo para os cuidados como trocar fraldas, dar banho e assim por diante. Essas manifestações de cuidado e afeto eram coisas atribuídas às mães como fruto de um instinto materno, algo da natureza das mulheres, que nasceram para ser mães e cuidar dos filhos. Aos homens não cabia o afeto porque eram provedores, fortes, racionais, poderosos, os que impunham a ordem, a disciplina, com a palavra final sobre tudo. Era feio para um pai demonstrar afetos ou qualquer proximidade. O certo era a distância para não deseducar e não transgredir os limites entre o mundo masculino e o feminino.

Elizabeth Bandinter, no livro “Um Amor Conquistado - O Mito do Amor Materno”(2), já desconstruiu esse pensamento que naturaliza o que está no campo da construção social e cultural. Não há uma essência amorosa em toda mulher que a faz ser “naturalmente” levada à maternidade para ser normal e realizada na vida. As mulheres, com o feminismo, se libertaram da sina e estão livres para amar. Elas escolhem casar ou não casar, ter ou não filhos, exercer a maternidade desta ou daquela maneira. Cada vez mais desejam se livrar da culpa quando não cumprem com o que foi estipulado como natural, um instinto básico de toda e qualquer mulher nascida para cuidar do esposo, dos filhos, da família, da casa.

As mulheres saíram de casa para trabalhar e a maternidade está sendo cada vez mais adiada para o fim da idade reprodutiva ou simplesmente deletada das possibilidades. É possível ser feliz sem ter filhos. Se tem filhos, é por escolha e não mais como um destino definido para todas as mulheres. Também o gosto por trabalhar fora ou o gosto pela profissão, carreira, vida social, as faz combinar a maternidade com tudo isso. Fosse o mercado de trabalho menos avesso às coisas da vida, como a maternidade, combinariam ainda mais e melhor esses prazeres ou tarefas. Estou falando de uma determinada classe social com mais recursos, mas o sentimento de liberdade, mesmo com as pressões vividas pelas mulheres mais pobres, já é maior do que o experimentado pelas suas mães e avós.

Naquelas empresas que não querem ser amadas acima de todas as coisas, que obrigam as mães a escolher entre viver ou trabalhar, as mulheres se realizam mais e tudo indica que isso seja também muito positivo para o desenvolvimento de seus filhos. Quando as regras permitem, as políticas favorecem e a cultura interna impede o machismo de punir as mulheres na volta da licença maternidade e nos cuidados que os primeiros anos de vida exigem dos pais, a mulher consegue conciliar melhor suas muitas facetas e realizar escolhas. A mulher, sem os condicionamentos impostos, tem melhores condições para definir suas prioridades.

E os pais? Também estamos vivendo hoje o que meu pai-avô tentou experimentar nos anos setenta. Os homens estão entendendo que devem ir mais para casa, assim como as mulheres foram para o mercado de trabalho. Eles não só devem, mas percebem que isso está no campo das escolhas, das possibilidades, da liberdade de ser diferente do que foi e fez as gerações passadas.

Como aquele pai viúvo que, por conta das circunstâncias, se viu numa proximidade maior com seus filhos, outros pais estão “nascendo”. Eles estão construindo uma relação de tipo novo com seus filhos e filhas. É possível que alguns comecem a inventar o mito do amor paterno. Tomara que não. Tomara que deem valor às escolhas que estamos realizando. Tomara que reconheçam o quanto o feminismo está ajudando também na libertação dos homens. O carcereiro não deixa de ser um prisioneiro, como dizem algumas feministas.

Os homens de hoje romperam com a distância imposta por papéis de gênero que não fazem mais sentido ou que foram percebidos como autoritários e destruidores de relações mais amorosas e edificantes para todos, filhos e pais. Eles expressam afeto, convivem, beijam, curtem o cheirinho da criança e até se tornam os principais cuidadores, o que era antes proibido aos homens provedores.

Claro que há ainda um grande número de homens, como dizem os dados, presos nos papéis definidos por outros, sobrecarregando as mulheres, prisioneiros do machismo. Claro que o mercado de trabalho e a legislação do país ainda determinam o que cabe “naturalmente” às mulheres e aos homens, mas os sinais de mudança estão presentes e apontam para um futuro mais interessante.

É um futuro no qual os homens não terão apenas cinco dias corridos de licença, tempo oferecido pelo mercado de trabalho para registrar o filho. Já temos algumas empresas ampliando voluntariamente a licença paternidade por entender que isso é um diferencial na guerra por talentos, por querer atender uma demanda que já existe por parte dos homens e por querer contribuir efetivamente na construção da equidade de gênero. Empoderar as mulheres, como dizemos, passa criar condições para que o homem vá mais para casa, experimente a dor a e delícia do mundo dos cuidados, tanto quanto elas experimentam a dor e a delícia do dito mundo produtivo.

Ser pai jamais será como antes, tomara. Se houve a desconstrução do mito do amor materno, ele permitiu também a construção de uma proximidade dos homens com os filhos e filhas que, talvez, nunca tenha acontecido antes na história da humanidade. Não sei. Que os historiadores se ocupem disso. Que é melhor ser pai hoje e será ainda mais no futuro próximo, isso dá para dizer. Feliz dia dos pais, homens do século XXI!
(1)    http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2015/08/licenca-maternidade-e-passada-para-pai-de-gemeos-apos-morte-da-esposa.html
(3)    Depoimento de um pai no site Pais que Educam, de onde retirei a foto que ilustra este artigo: http://www.paisqueeducam.com.br/2014/08/20/para-um-pai-o-que-e-paternidade-ativa/

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Diálogos da Esperança - 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente

Diálogos da Esperança - 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente

Reinaldo Bulgarelli
31 de julho de 2015

Participei de um seminário promovido pela Globo e pela UNESCO que foi ao ar no último dia 26 de julho. Ele reuniu a equipe de ativadores do Criança Esperança, especialistas e Pedro Bial, que nos entrevistou.

São 30 anos do Criança Esperança e 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente que a Globo e a Unesco estão celebrando de uma maneira muito inovadora.

Para quem tem acesso ao Globo Play, segue o link: http://globosatplay.globo.com/globonews/v/4348642/

domingo, 26 de julho de 2015

Trindade


Trindade
Reinaldo Bulgarelli
07 de julho de 2015

Trindade abaixava a cabeça quando passava pelas pessoas. Eu o seguia com olhos curiosos e amedrontado. Morria de medo de me tornar o Trindade. Ele abaixava a cabeça porque decerto via, mesmo sem olhar, aqueles olhares desconcertados. Também ouvia, fingindo não ouvir, os comentários desencontrados que sua presença impunha. Eu não entendia muito bem o porquê. Só sabia que não era bom ser Trindade. Perguntava, mas ninguém respondia. Acho que já nem lembravam mais o motivo, se é que um dia souberam.
Vi meus pais entrarem em silêncio como se algo fosse acontecer. Era Trindade passando na frente do nosso prédio. Eu estava grudado nas grades e fazia acrobacias de menino como se nada mais pudesse ver ou escutar. Mas, não era bem assim. Minha mãe disse que ele não ia muito longe. Parei para olhar ele cair, mas não caiu. Meu pai, balançando a cabeça em desaprovação, apesar de concordar, reprovava era o Trindade. Acho que também tinham medo de se tornar um Trindade.

Dias depois eu me estatelei no chão. A bicicleta de rodinhas descia a Rua Itambé como se fosse uma locomotiva, mas não derrubou o poste. Fui parar logo adiante com um galo na cabeça e os joelhos ralados. Alguém me pegou por trás e me levantou, virou meu rosto para mirar o galo que crescia numa vermelhidão assustadora. Não sei se eu parava de chorar ou se chorava mais ainda. Era o Trindade. Passou a mão nos meus cabelos e me botou na direção da bicicleta. Não disse nada, apenas mostrou o caminho com os olhos.

O porteiro do prédio veio ao meu socorro, não sei se pelo tombo ou se pelo Trindade. Ele, como sempre, seguiu seu caminho de cabeça baixa e ouvidos tapados. Eu o segui do alto do colo do seu Ernesto. Ele me acudiu no desastre e o seu Ernesto me acudiu de quem me acudia. Chorei ainda mais quando minha mãe ofereceu a acudida derradeira. O colo de quem a gente confia gera uma perda total de compostura.

Segui adiante, nem sempre tendo colo por perto, mas sempre encontrando Trindades. Já não choro mais ao encontra-los. O medo me fez observa-los e a curiosidade me fez até admirá-los, mesmo que de longe, às vezes mais de perto. O Trindade era fantasma de carne e osso que me invadia os pesadelos, estivesse dormindo ou acordado. Depois, foi invadindo meu jeito de olhar o mundo.

Ficou interessante olhar com olhos de Trindade. Ficou divertido considerar o que diria ou o que faria Trindade diante de qualquer situação que se me apresentava. Sempre seremos Trindade para alguns. O mundo sempre fica desnudo quando o Trindade passa. Aprendi que Trindade, seja lá por qual motivo for, sempre amedronta e atrai com seu andar que faz desmoronar as caras de paisagem.

domingo, 28 de junho de 2015

Dia do Orgulho LGBT

Dia do Orgulho LGBT
Reinaldo Bulgarelli
28 de junho de 2015

Esse colorido todo proporcionado pelo Facebook não é apenas por conta da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pela Suprema Corte dos EUA. Estamos no mês do Orgulho LGBT e a data central é justamente hoje, 28 de junho, motivo pelo qual a Suprema Corte dos EUA e organizações de outros países anunciam medidas a favor dos direitos LGBT.
Não foi o início do movimento por direitos LGBT, muito antigo, mas é a data que acabou imperando nas últimas décadas por conta da revolta ocorrida no bar Stonewall, em Nova York, dia 28 de junho de 1969. A polícia invadiu o bar, agrediu homossexuais e pessoas trans, como sempre fazia, mas a diferença é que encontrou resistência.
O resto da história a gente já conhece. Estamos vivenciando vários avanços, não sem conflitos, na conquista da igualdade de direitos, oportunidades iguais e igualdade de tratamento para a população LGBT.
Há quem veja movimentos de equiparação de direitos, todos eles, como movimentos para destruir os direitos dos outros. Sim, há a questão de acabar com privilégios de grupos que se entendem como normais, corretos, melhores ou a única maneira certa de viver a vida, por isso os conflitos.
Há interesses em jogo e há quem eleja a comunidade LGBT, como segmento excluído do status de normalidade e aceitação social, para se projetar, ganhar dinheiro ou ganhar poder político. Nada como eleger um inimigo para poder se fortalecer, dentro desta lógica maquiavélica para ganhar mais poder, fama e dinheiro.
A proposta do movimento LGBT e seus aliados é a de promover direitos iguais e, com isso, promover também uma cultura de respeito às orientações sexuais e identidades de gênero que não foram consideradas como respeitáveis por questões das mais variadas, não apenas religiosas.
O uso da religião para afirmar privilégios de pessoas heterossexuais ou cisgêneras é uma delas e a mais presente hoje no Brasil. Há grupos que abertamente manipulam a religião para manter seus privilégios, por exemplo, fazendo uso de alguns trechos de textos destas religiões e esquecendo outros. Por que não viver de acordo com todos os outros preceitos do texto que é sagrado para essas pessoas ou grupos?
A ONU recentemente lançou a campanha "Livres e Iguais" para reafirmar que todas (todas!) as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. O vídeo lançado em maio (https://www.youtube.com/watch?v=8qsSlomXuzE) é para marcar esse período no qual há várias datas que lembram o enfrentamento da homofobia e o dia de hoje, do Orgulho LGBT. Portanto, os homofóbicos, que negam direitos iguais a homossexuais e pessoas trans, ficam ainda mais violentos e atacam tanta visibilidade e presença na mídia, mas são dois meses especiais para a comunidade.
Afirmar o orgulho LGBT não é afirmação de que há uma "raça superior". Isso os homofóbicos o fazem ao negar respeito e direitos iguais. O orgulho se contrapõe à vergonha de ser homossexual ou travesti e transexual, imposta por quem se considera normal e, portanto, superior. As Paradas e outras manifestações neste período fazem parte desta busca por dar visibilidade às situações adversas enfrentadas pelas pessoas LGBT, mostrar suas propostas para garantir direitos iguais e a importância do respeito.
Você que coloriu a sua foto a convite do Facebook, seja porque é da comunidade LGBT ou porque é solidário à ideia de respeito e direitos iguais, pode ficar "colorido" até o final do mês. Há quem queira ficar colorido para sempre, dando visibilidade a este aspecto de sua vida ou de suas crenças, de seu ativismo ou de sua busca por afirmar cotidianamente o orgulho de ser LGBT ou solidário às agendas da comunidade.
Os que se incomodam, continuarão se incomodando, usando até fotos de crianças famintas para disfarçar sua homofobia numa forçada e repentina solidariedade com a África (e suas religiões?). É até bom sinal, penso eu, que estejam começando a ter vergonha de afirmar sua homofobia tão abertamente e precisem usar de faces famintas e não as próprias. É covarde e mais uma prática de violência, mas isso a comunidade LGBT e quem é solidário a ela já conhece, portanto, não há novidades.
A agenda por direitos iguais é longa porque ainda são muitos os direitos negados às pessoas LGBT. Estamos longe, assim, da igualdade de oportunidades e de tratamento. Mas, os avanços são visíveis em todos os campos e é bom não esquecê-los porque são fruto do trabalho de muita gente que nos antecedeu.
Haverá um dia em que nada dessa conversa sobre direitos iguais será necessária? Tomara, mas tudo indica que, mesmo alcançando igualdade de oportunidades e tratamento, sempre haverá alguém, com maior ou menor apoio, para dizer que ser LGBT é contra a religião, a família, o Estado, isso e aquilo. Há questões que são históricas e persistentes no nosso caminho como humanidade, com gente sempre pronta pra nos usar em busca de privilégios, alcançar fama, poder e dinheiro.
Portanto, cuide-se bem porque o caminho é longo, mas não é mais tão solitário como já foi um dia. Basta ver esse colorido que ganhou as páginas do Facebook.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Bilhetinho às crianças e adolescentes, filhos de nazistas, sobre gênero e diversidade na educação

Bilhetinho às crianças e adolescentes, filhos de nazistas, sobre gênero e diversidade na educação

Reinaldo Bulgarelli
23 de junho de 2015

Se você é de uma família criacionista, por exemplo, encontrará na escola a versão científica desta história. Estamos falando da escola pública e não uma escola confessional, mas isso vale para todas.
Cabe à sua família dizer no que crê e à escola dizer o que sabemos, nós humanos, sobre nós mesmos. E tudo com base na ciência. Não deveria haver conflito, apenas o direito ao acesso à informação, sobretudo à informação com base na ciência, sobretudo na escola pública, mas isso vale para todas. Conhecer é (ou deveria ser) algo muito prazeroso.
O país tem uma Constituição (conheça, vale a pena!), e tem uma LDB e um PNE. Tem, ou deveria ter, gente séria cuidando para que a escola fosse um lugar que cuidasse da sua formação e não um lugar de pregação nazista (com o dinheiro público!). As alianças políticas às vezes descambam para lugares horríveis e esquecem até de cuidar da escola, da educação e agem como se pudessem lotear também o futuro que nem terão (a vida é curta!).
O mesmo vale para o conhecimento sobre questões de gênero, diversidade humana e outros temas que você precisa conhecer, até para poder tomar suas decisões, realizar suas escolhas, produzir algo sobre tudo isso, quem sabe? O que não está no campo das escolhas, ou não deveria estar, é o respeito às pessoas.
Você deverá saber que amar as pessoas está no campo das escolhas, mas respeitar não está. Se a religião dos seus pais diz para amar todas as pessoas, muito bem, mas na sociedade o texto que rege nossas vidas é escrito por gente e ele nos diz para respeitar todas as pessoas.
Tem um texto muito legal que você precisa conhecer (e que seus pais odeiam). Ele diz que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Não é um texto sagrado, mas elaborado por gente, sim, gente como eu e você, para enfrentar gente como seus pais que querem aniquilar os que são diferentes deles.
Sua família, minha criança e meu jovem, pode estar tirando de você o acesso a uma informação que vai lhe fazer falta na vida. Pior, está impondo a você uma formação nazista na qual o desrespeito e a violência contra "os pecadores", “os diferentes deles”, os "destruidores da pátria e da família”, são uma exigência para você ser reconhecido como "uma pessoa de bem". Lá no céu da sua religião, você vai ter que prestar contas do amor, mas aqui você deve (ou deveria) prestar contas do respeito.
Presta atenção: a vida não é assim como querem seus pais nazistas e, se for, será uma vida muito pobre, cheia de sangue nas mãos, o que não é uma coisa boa para ninguém, inclusive para você. Não acredita? É porque seus pais não deixam você conhecer a história, ver o mundo para além da ideologia deles, das mentiras que inventam em nome da sua “boa formação moral”.
Esse nazismo com cara de religião (cada hora o nazismo tem uma cara, mas é tudo a mesma coisa) é vergonhoso e será cada vez mais poderoso quanto menos você aprender na escola, sobretudo na pública, mas não apenas.
Meu conselho é que você diga aos adultos que cuidam de você e que deveriam te ajudar a estar no mundo e com o mundo, que você tem direito a saber o que diz a ciência, tanto quanto eles têm direito a te dizer o que diz a religião deles.
O que eles não têm direito é de fazer pregação nazista na escola, muito menos na escola pública, mas não apenas.
Quem cuida (ou deveria cuidar) de manter e fortalecer o estado democrático de direito, há de se manifestar sobre as práticas nazistas de seus pais e desfazer o que estão fazendo no espaço público, mas não apenas. (Se fazem isso na vida pública, imagine o que não fazem na privada?!)
Uma escola não fica vazia apenas quando faltam alunos, mas quando lhe retiram o motivo para a qual foi criada.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Diversidade humana e a humanização da diversidade


Anjo de costas, sem rosto, só asas. (foto: Reinaldo Bulgarelli)
Diversidade humana e a humanização da diversidade
Reinaldo Bulgarelli, 12 de maio de 2015

A diversidade nas organizações empresariais enfrenta o desafio de se humanizar. Muitos dizem que não é importante falar de diferenças, muito menos das questões de gênero, raça, idade, orientação sexual, identidade de gênero ou deficiência, entre outras características, mas da diversidade cultural, de pensamento ou de ideias.
Defendo que a diversidade nos convida a olhar tudo junto e ao mesmo tempo. Estamos falando da diversidade de características tidas como visíveis, tanto quanto estamos falando da diversidade de histórias de vida, experiências, sentimentos, pensamentos, crenças e perspectivas.
Os motivos para isso são muito simples. Ninguém, por exemplo, é apenas mulher. É mulher e muito mais, numa complexa e rica variedade de marcadores identitários que tornam cada pessoa única ou singular. E as mulheres vivem numa dada realidade, um tempo e lugar que a valoriza ou a desqualifica conforme o grau de machismo presente na sociedade.
A característica “ser mulher” traz implicações na rede de relações sociais de acordo com o entendimento produzido pelo machismo sobre o que significa ser homem ou ser mulher, quem pode mais, quem nasceu para isso e para aquilo, quem é forte e quem é frágil. Uma característica tida como visível pode produzir experiências das mais variadas numa pessoa do sexo feminino e no seu entendimento sobre os papéis de gênero que a cercam desde o nascimento.
Uma das consequências do machismo é a produção de desigualdades injustas entre homens e mulheres. São injustas porque estão num nível intolerável e não estão baseadas no mérito, mas na característica. O que é apenas uma característica, se transforma em motivo para desigualdades injustas e, numa sofisticada teia de geração de falsas hierarquias sociais, essas desigualdades podem ser naturalizadas. O que é do campo social, essa desigualdade produzida na vida em sociedade, é justificada como se fosse do campo da natureza, da biologia ou da genética.
Só por esses motivos já é possível insistir no convite da diversidade para seja humanizada, ou seja, para que se considere a pessoa toda nas suas circunstâncias, na rede de relações e nesta teia de ideologias da discriminação (racismo, machismo...) na qual estamos imersos e da qual precisamos nos libertar. Humanizar a diversidade parece redundante, mas não é o que acontece quando nossos programas de valorização da diversidade pinçam um marcador identitário, como ser mulher, separando-o da história de vida e de todos os outros marcadores que contém, suas implicações e impactos.
No pensamento simplista, ou você é mulher ou é uma ideia, ou é um corpo ou uma alma. Acolher a vida como ela é significa considerar um marcador identitário como porta de entrada para toda a riqueza da diversidade humana contida em cada pessoa, uma singularidade que se expressa de forma dinâmica e complexa na teia de relações sociais.